Dembélé desafia a Maldição da Bola de Ouro antes da Copa

Ousmane Dembélé e a Maldição da Bola de Ouro
Ousmane Dembélé apresenta a Bola de Ouro à torcida do PSG no Parque dos Príncipes — Foto: FRANCK FIFE / AFP

A Maldição da Bola de Ouro acompanha vencedores do prêmio desde 1956 e agora recai sobre Ousmane Dembélé, atual dono do troféu, que busca romper o tabu às vésperas da Copa do Mundo de 2026.

Maldição da Bola de Ouro

A expressão ganhou força porque, historicamente, nenhum jogador que chegou a um Mundial ostentando o título de melhor do ano pela France Football conseguiu erguer a taça naquele torneio. A Maldição da Bola de Ouro é mencionada sempre que um craque laureado chega ao Mundial com a responsabilidade extra de confirmar o status internacional em campo.

Ousmane Dembélé, 29 anos e em sua terceira Copa, vive esse momento depois de uma temporada de destaque pelo Paris Saint-Germain que lhe rendeu a Bola de Ouro. A expectativa envolve não só o atacante, mas também a seleção francesa, apontada entre as favoritas no torneio.

Contexto histórico

O prêmio da France Football foi criado em 1956 e, até 1994, era restrito a jogadores europeus. Em 1995, a disputa foi aberta a atletas de qualquer nacionalidade que atuassem na Europa, o que tornou possível a inclusão de grandes nomes globais em edições subsequentes.

Mesmo após a internacionalização do troféu, o tabu permaneceu. Ao longo das décadas, vencedores da Bola de Ouro chegaram ao Mundial em diferentes situações — lesões, problemas de forma, convulsões, eliminações nas fases iniciais ou até mesmo sem classificação — e a sequência de insucessos manteve viva a narrativa da Maldição da Bola de Ouro.

Ousmane Dembélé e a Maldição da Bola de Ouro
Ousmane Dembélé apresenta a Bola de Ouro à torcida do PSG no Parque dos Príncipes — Foto: FRANCK FIFE / AFP

Raio‑X da “maldição”

Desde 1956, 17 vencedores da Bola de Ouro estiveram presentes em Copas com o rótulo de melhor do mundo, e nenhum conseguiu levantar o título naquele mesmo torneio. A seguir, um panorama dos casos lembrados com frequência quando se fala na Maldição da Bola de Ouro:

  • 1958 – Alfredo Di Stéfano (Espanha): a Espanha não se classificou para a Copa da Suécia e o camisa 10 nem viajou.
  • 1962 – Omar Sívori (Itália): marcou um gol e viu a Itália ser eliminada na fase de grupos no Chile.
  • 1966 – Eusébio (Portugal): brilhou e foi artilheiro com 9 gols; Portugal terminou em 3º após perder na semifinal para a Inglaterra.
  • 1970 – Gianni Rivera (Itália): viveu crise nos bastidores, entrou por poucos minutos na final e assistiu ao triunfo do Brasil por 4 a 1.
  • 1974 – Johan Cruyff (Holanda): comandou o “Carrossel Holandês” e foi derrotado na final pela Alemanha Ocidental (2 a 1).
  • 1978 – Allan Simonsen (Dinamarca): no auge, não disputou a Copa da Argentina porque a Dinamarca não se classificou.
  • 1982 – Karl‑Heinz Rummenigge (Alemanha Ocidental): atuou lesionado e foi vice‑campeão ao perder a final para a Itália (3 a 1).
  • 1986 – Michel Platini (França): limitado por pubalgia, parou na semifinal contra a Alemanha Ocidental (2 a 0).
  • 1990 – Marco van Basten (Holanda): teve participação discreta; a Holanda caiu nas oitavas para a Alemanha Ocidental.
  • 1994 – Roberto Baggio (Itália): levou a Itália à decisão, mas perdeu o pênalti na final contra o Brasil.
  • 1998 – Ronaldo (Brasil): sofreu uma convulsão horas antes da final em Paris e entrou visivelmente abalado; o Brasil foi derrotado pela França por 3 a 0.
  • 2002 – Michael Owen (Inglaterra): marcou nas quartas, mas a Inglaterra perdeu para o Brasil por 2 a 1.
  • 2006 – Ronaldinho Gaúcho (Brasil): atuou longe do brilho habitual e o Brasil caiu nas quartas para a França de Zidane.
  • 2010 – Lionel Messi (Argentina): jogou de forma discreta nas quartas, quando a Argentina foi goleada pela Alemanha por 4 a 0.
  • 2014 – Cristiano Ronaldo (Portugal): prejudicado por tendinite, marcou apenas um gol e Portugal saiu na fase de grupos.
  • 2018 – Cristiano Ronaldo (Portugal): começou com um hat‑trick contra a Espanha, mas Portugal foi eliminado nas oitavas pelo Uruguai (2 a 1).
  • 2022 – Karim Benzema (França): lesionou‑se três dias antes da estreia no Catar e foi cortado; a França terminou como vice‑campeã nos pênaltis.
  • 2026 – Ousmane Dembélé (França): é o atual detentor da Bola de Ouro e chega ao Mundial com a missão de tentar quebrar o tabu.

Por que o tabu persiste?

Não existe explicação única: lesões e problemas físicos aparecem com frequência, assim como desempenhos abaixo do esperado ou simples coincidências de calendário e contexto esportivo. A narrativa da Maldição da Bola de Ouro sobrepõe fatores esportivos a elementos de narrativa coletiva que acompanham grandes competições.

Para a França e para Dembélé, há uma dimensão adicional: a pressão de representar um país que, historicamente, já deu ícones do futebol moderno e que vê na Bola de Ouro uma referência simbólica. A gestão do elenco e as escolhas táticas de Didier Deschamps são acompanhadas de perto — refletidas no debate tático em torno de nomes como Michael Olise — e a seleção busca equilíbrio entre talento ofensivo e solidez defensiva. Mais detalhes sobre a relação entre Deschamps, Dembélé e Olise podem ser encontrados no texto sobre o dilema de Deschamps entre Olise e Dembélé, enquanto o posicionamento do atacante na seleção é tema de outra análise: Dembélé pede a Mbappé mais esforço defensivo.

Bola de Ouro 2022: Karim Benzema é eleito o melhor jogador do mundo
Bola de Ouro 2022: Karim Benzema é eleito o melhor jogador do mundo na temporada 2021/22 — Foto: Reuters

O torneio de 2026 exigirá manejo coletivo e foco individual. A França possui opções no ataque e no meio, e nomes emergentes, como Michael Olise, aparecem como alternativas de comando ofensivo — tema abordado em reportagem específica sobre Michael Olise como aposta da França — sem que isso elimine a responsabilidade de Dembélé como peça-chave.

Fechamento

A Maldição da Bola de Ouro permanece como uma narrativa forte no futebol, alimentada por exemplos concretos e por coincidências históricas. Resta ao atacante Dembélé e à França a tarefa de transformar estatística em exceção: jogar bem durante o torneio e, se possível, encerrar uma sequência que já dura sete décadas.

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