A logística do Irã para a Copa do Mundo foi redesenhada às pressas em meio à escalada de tensão e aos impactos da guerra no Oriente Médio, com ataques de Israel e dos Estados Unidos contra a República Islâmica. A delegação iraniana encerra neste sábado o período de incertezas e embarca rumo ao Mundial, com trajeto partindo da Turquia em direção ao México.
Nos últimos meses, o futebol virou pano de fundo para uma disputa política que atingiu diretamente o planejamento da seleção: houve ameaças de boicote, demora na emissão de vistos, mudanças na base de treinos e até polêmicas em torno da lista de convocados. Em campo, o Irã chega à sua sétima participação em Copas do Mundo e tenta, pela primeira vez, superar a fase de grupos.
À Associated Press, o meio-campista Saeid Ezatolahi, que já disputou os Mundiais de 2018 e 2022, reconheceu o peso do contexto fora das quatro linhas.
“Bem, para ser honesto, não é fácil. Esta será minha terceira Copa do Mundo, então, pode ser um pouco mais fácil lidar com isso. Mas, no final das contas, vai ser difícil para todos porque, ao mesmo tempo, estamos acompanhando as notícias do nosso país e as questões políticas. Claro, podem afetar o psicológico dos jogadores e das pessoas.”
Como a logística do Irã para a Copa do Mundo foi alterada
Embora o Irã tenha garantido vaga no Mundial em 25 de março do ano passado — como a terceira seleção classificada (sem contar Estados Unidos, Canadá e México, países-sede) —, a guerra forçou um redesenho logístico em cima da hora. Entre as principais mudanças, a mais relevante foi a decisão de não estabelecer base nos Estados Unidos, como se previa inicialmente.
A equipe integra o Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Na primeira fase, os jogos serão disputados em solo americano, em Los Angeles e Seattle, o que tornou ainda mais sensível o debate sobre deslocamentos, vistos e segurança.
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Base de treinos: de Tucson para Tijuana
O plano original da seleção iraniana era se instalar em Tucson, no Arizona. A mudança foi confirmada pela Fifa em 24 de maio: o Irã ficará em Tijuana, no México, no Centro Xoloitzcuintle, complexo do Club Tijuana.
Antes disso, em março, a federação iraniana chegou a solicitar à Fifa que transferisse os jogos da equipe para o México, pedido rejeitado. Apesar de os compromissos seguirem nos Estados Unidos, a base em Tijuana foi considerada estratégica por aproximar a delegação dos locais de partida, já que a cidade mexicana fica na fronteira com a Califórnia.
De acordo com a programação, a seleção irá percorrer cerca de 2.500 km a menos na primeira fase do torneio em comparação com o plano original.
O meio-campista Mohammad Ghorbani, de 24 anos, convocado para sua primeira Copa, também falou sobre o momento do país e a responsabilidade do grupo.
“É verdade que estamos enfrentando circunstâncias especiais agora, mas somos jogadores de futebol e temos que jogar, treinar e nos preparar para as competições que temos pela frente. Sabemos que nosso povo tem passado por muitas dificuldades durante a guerra, e estamos lá por eles, para obter os melhores resultados para a alegria do nosso país.”
Agenda do Irã na fase de grupos
- 15/6 – 22h (de Brasília) – Irã x Nova Zelândia, em Los Angeles
- 21/6 – 16h (de Brasília) – Bélgica x Irã, em Los Angeles
- 27/6 – 0h (de Brasília) – Egito x Irã, em Seattle
Preparação entre Teerã e Turquia
Não há registros de impacto direto da guerra na preparação em campo. O time comandado por Amir Ghalenoei treinou por cerca de um mês no Centro Nacional de Futebol, em Teerã, antes de viajar em 18 de maio para Antalya, na Turquia.
Na reta final, foram realizados dois amistosos de portões fechados: um contra a Gâmbia e outro diante do Mali. A federação iraniana não relacionou o fato de os jogos serem fechados ao conflito.
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Ameaças de boicote e pressão política
A tensão entre Irã e Estados Unidos se refletiu diretamente no debate sobre a participação iraniana no torneio. Em março, o Ministério dos Esportes do Irã chegou a proibir equipes esportivas nacionais e clubes de viajarem a países considerados “hostis”. No mesmo período, Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), ameaçou boicotar jogos em território americano, indicando preferência por atuar no México.
A Fifa, por sua vez, afirmou que não cabe à entidade resolver conflitos geopolíticos, mas destacou esforços para usar o futebol como ferramenta de aproximação e promoção da paz. Do lado americano, o presidente Donald Trump afirmou considerar inapropriada a presença iraniana por questões de segurança e chegou a defender a substituição do Irã pela Itália.
Um sinal de que o tema vinha se acumulando ocorreu ainda no ano passado, quando o Irã chegou a anunciar que não iria ao sorteio do Mundial por causa de restrições de visto. Na ocasião, apenas quatro vistos foram aprovados e Taj teve a entrada negada nos Estados Unidos; mesmo assim, dois representantes acabaram indo a Washington.
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Vistos, congressos e reunião com a Fifa
Em abril, membros da delegação iraniana não compareceram ao Congresso da AFC e ao 76º Congresso da Fifa, realizados em Vancouver, no Canadá. O Irã foi a única entidade ausente. Mehdi Taj chegou a desembarcar no país, mas não teve permissão para permanecer; segundo agências internacionais, ele teve a entrada negada por ter atuado no passado na Guarda Revolucionária do Irã.
O episódio levou a Fifa a marcar uma reunião com Taj em maio, em Zurique, na Suíça, para discutir preparativos, inclusive a transferência da base para o México. Havia receio de que o impedimento no Canadá se repetisse nos Estados Unidos, diante da possibilidade de restrições a dirigentes com ligações anteriores com forças de segurança iranianas.
O processo de emissão dos vistos para o México, segundo o relato do caso, só foi concluído na quinta-feira, dois dias antes da viagem e 11 dias antes da estreia do Irã na Copa, em 15 de junho, contra a Nova Zelândia. A Fifa precisou atuar como intermediária nos bastidores junto às autoridades dos países-sede.
Segurança reforçada e monitoramento
Entre as condições apresentadas pelo Irã para participar do torneio estão a concessão de vistos e o respeito à comissão técnica, à bandeira e ao hino do país, além de segurança reforçada em aeroportos, hotéis e nos deslocamentos até os estádios.
Do lado americano, o Secretário de Estado Marco Rubio afirmou que a delegação iraniana será monitorada de perto, com o objetivo de evitar ligações com terrorismo, citando especialmente a Guarda Revolucionária do Irã.
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Azmoun fora: polêmica e explicações não oficiais
Um possível reflexo do contexto político no ambiente esportivo foi a ausência de Sardar Azmoun na convocação. Terceiro maior artilheiro da história da seleção iraniana, ele se envolveu em uma polêmica ao compartilhar, em março, uma imagem apertando a mão de Mohammed bin Rashid Al Maktoum, primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos — país aliado dos Estados Unidos. O xeque é presidente de honra do Shabab Al-Ahli, clube do atacante.
O gesto, no entanto, não é apontado como justificativa oficial para a não convocação. A imprensa local mencionou que Azmoun teria descumprido prazos para a obtenção do visto. Além disso, ele passou por cirurgia no tornozelo esquerdo em outubro do ano passado e ficou quatro meses sem atuar.
Azmoun disputou as Copas de 2018 e 2022, tem 57 gols em 91 partidas pela seleção e, no ciclo deste Mundial, acumulou 24 participações diretas em gols desde 2023 (16 gols e oito assistências), com alta taxa de aproveitamento da equipe no período.
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O que esperar do Irã na Copa do Mundo
Historicamente, o Irã ainda busca dar um passo adiante na principal competição do futebol. Em seis participações anteriores, a seleção nunca passou da fase de grupos e soma três vitórias em 18 jogos. Para 2026, a expectativa é que o desempenho em campo seja influenciado por um cenário incomum de pressão política e ajustes de última hora fora do gramado.
Com base em Tijuana, agenda definida e vistos finalmente liberados, a delegação chega ao Mundial tentando transformar a estabilidade logística em foco esportivo, mesmo em meio à atenção constante às notícias do país.
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