O modelo de 48 seleções já aparece em evidência nas primeiras partidas: a festa das arquibancadas e as histórias humanas contrastam com distorções competitivas que exigirão solução — o modelo de 48 seleções está sendo celebrado, mas também começa a mostrar falhas.
Impactos do modelo de 48 seleções
Ainda na primeira rodada de grupos é cedo para um veredito definitivo, mas alguns aspectos já são claros. Na vertente positiva, a ampliação da Copa trouxe torcidas apaixonadas e momentos de pura alegria, típicos de nações menores no mapa do futebol. No lado neutro, aumentaram-se as receitas da entidade responsável pelo torneio. E, no campo dos problemas, surgiu uma questão estrutural: a definição da vaga entre os terceiros colocados e a vantagem informada que equipes poderão ter ao entrar em campo com conhecimento prévio do que precisam.
O fenômeno das torcidas — que o novo formato estimulou — gerou cenas marcantes. A empolgação do público do Catar ao festejar um gol de empate, a vibração dos torcedores de Curaçao quando o time marcou contra a Alemanha, e a comemoração de Cabo Verde ao suportar a pressão diante da Espanha são exemplos de como a competição se humaniza com a presença de seleções menos tradicionais. Em momentos assim surgem também histórias pessoais que enriquecem o evento, como a do goleiro Vozinha, com destaque nas defesas a favor de sua seleção.
Histórias que valem Copa
Além do espetáculo nas arquibancadas, novas narrativas aparecem. Vozinha, que tem mais de 40 anos e carrega um apelido com origem curiosa, foi um desses personagens que prestigiaram a competição. Outra curiosidade mencionada em torneios com alcance ampliado é a repetição de apelidos e expressões locais, pequenos traços que fazem a festa ser tão atraente para quem acompanha.
O modelo de 48 seleções permitiu que times com pouca tradição ganhassem visibilidade e protagonismo, ainda que não tragam, em muitos casos, grandes contribuições técnico-táticas ao torneio. Esse é um efeito previsível e, ao mesmo tempo, parte do argumento pró-expansão: mais países participam, mais torcidas comemorarão resultados simbólicos.
Organização, calendário e a vantagem informada
Uma das críticas mais imediatas ao modelo refere-se à sequência final da fase de grupos. Com a ampliação para 48 participantes e a inclusão dos melhores terceiros, torna-se praticamente impossível manter todos os jogos decisivos de cada grupo simultâneos. Assim, seleções de alguns grupos poderão disputar suas partidas finais já sabendo o que será suficiente para avançar — ou até qual adversário enfrentar no mata-mata — algo que não ocorria quando apenas dois times se classificavam por chave.
Essa vantagem informada altera a dinâmica competitiva. Em formato anterior, as duas últimas partidas de cada grupo eram jogadas no mesmo horário para evitar que equipes se beneficiassem de informação prévia. Agora, por força do aumento de chaves, o cronograma tem de ser escalonado. Ainda que não se afirme que algum time perderá de propósito, há espaço para decisões táticas ou gerenciais que favoreçam trajetórias mais cômodas na fase seguinte.
- Equilíbrio perdido: jogos em horários distintos podem gerar desequilíbrio competitivo;
- Planejamento: staffs técnicos terão mais margem para optar por preservação de atletas;
- Solução necessária: a entidade organizadora precisa reavaliar formatos e cronogramas para manter justiça esportiva.
O problema não cabe a um ajuste simples durante a competição atual, mas é atribuição da Fifa encontrar alternativas para edições futuras, caso mantenha a expansão ou a leve adiante — já existem conversas sobre ampliar ainda mais o torneio.
Comercialização e críticas à lógica de expansão
Do ponto de vista institucional, a Fifa recebeu forte incremento de receita com mais seleções e mercados envolvidos. A crítica aqui não é inédita: a expansão é vista por observadores como uma estratégia para aumentar a base de consumidores e atingir novas praças. Nesse aspecto, a ampliação atende objetivos comerciais e de marketing, nem sempre alinhados com a qualidade técnica das partidas.
Mesmo assim, a presença ampliada trouxe repertório cultural e emocional ao torneio. As torcidas de países menores estão sob os holofotes e protagonizam cenas que redes internacionais e torcedores lembram por muito tempo. É esse contraponto — festa popular versus lógica comercial e questões esportivas — que torna o debate sobre o formato tão intenso.
O que vem pela frente
Ainda teremos tempo para avaliar o impacto integral do modelo de 48 seleções. Nas próximas rodadas, novas situações surgirão e permitirão análises mais precisas sobre competitividade, calendário e justiça esportiva. Enquanto isso, a cobertura e as reações do público ajudam a medir o valor social da expansão, ao mesmo tempo em que alimentam o debate técnico.
Para acompanhar desdobramentos e reportagens relacionadas à competição e às primeiras surpresas do torneio, confira textos recentes sobre a cobertura inicial do Mundial, como as primeiras zebras da Copa do Mundo, a estreia da Espanha e notícias sobre cortes e mudanças de elenco, como o caso da Nova Zelândia cortando Matthew Garbett.
Em suma, o modelo de 48 seleções trouxe cores, histórias e problemas. A festa das torcidas provou que há valor social na inclusão de mais países. Mas a questão competitiva e a necessidade de ajustes no calendário e no regulamento não podem ser subestimadas. Cabe à entidade organizadora ouvir especialistas e clubes para que as próximas edições preservem o espetáculo sem abrir mão da equidade.
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